quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Eu quero votar para presidente!

O que o futebol tem a ver com voto e democracia?


O futebol teve papel importante na redemocratização brasileira.


       É lugar comum fazer a velha associação entre futebol e alienação popular. Aqueles que tentam fazer um comentário profundo vão buscar na antiguidade clássica a associação rasa que chama o futebol de pão e circo da atualidade. É bem verdade que existem manipulações e são muito bem feitas com todos seus fetiches e outros significados.  Mas aqui não adotaremos esse olhar unilateral do “futebol ópio popular”.

      Se passarmos a perceber que o futebol não pode ser analisado separado da sociedade em que se desenvolve, começaremos a entendê-lo como espaço de manifestações não só esportiva, mas sociais e políticas.

      Assim, para enfrentar a equipe do “Lugar Comum Futebol Clube”, que tem uma torcida bastante barulhenta mas pouco preparada, escalo a Democracia Corinthiana para campo. Mais precisamente para analisar o contexto social do fim da ditadura e o movimento “Diretas já”.

      O mesmo esporte que fora usado pela ditadura civil-militar no Brasil para propagandear e exaltar o governo várias vezes (tomemos como exemplo apropriação feita pela seleção brasileira na Copa do Mundo do México em 1970: “Pra frente Brasil, Salve a Seleção”), também serviria como ferramenta de comoção popular para o retorno da democracia.

      Em 1981, um grupo de jovens desportistas de um dos clubes mais populares do Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista, começava a dar importância a liberdade e igualdade no futebol por meio de um movimento de gestão democrática que ficou conhecido como: Democracia Corinthiana. Encabeçada por um diretor de futebol que não entendia muito de cartolagem, o jovem sociólogo Adilson Monteiro Alves, e jogadores politizados, como Wladimir, Casagrande e Sócrates, a Democracia Corinthiana pregava o voto como ferramenta de escolha para decisões do clube. Tais decisões eram tomadas apenas por dirigentes, mesmo a contra-gosto de atletas e funcionários.

“ Um médico, um revoltado quase na adolescência, um negrinho de muita personalidade”.
Nas palavras do sociólogo e jornalista Juca Kfouri o movimento da Democracia Corinthiana resulta de abeças diferentes, mas voltadas mais ou menos para a mesma direção.

       Desde concentrações, viagens e até escolhas de treinadores passavam pela seleção democrática, onde os votos tinham o mesmo peso, desde o roupeiro até os diretores de futebol do clube. Isso tudo está acontecendo num momento em que os brasileiros não podiam escolher quem seria seu presidente há 17 anos.

Coincidências do futebol ou não, depois desse novo regime democrático o Corinthians ganha dois títulos paulista consecutivos, o que não acontecia há trinta anos.

      Tendo em vista o grande apelo popular que o futebol tem no Brasil e a capacidade de instigar pessoas com pouco interesse por política, não demoraria muito para que o exemplo de democracia exercido nos campos também fosse desejado pela sociedade e se manifestasse na vontade de votar para presidente.

      A passagem da Democracia Corinthiana dos campos de futebol para o campo político nacional se materializa em abril de 1984 no comício pelas “Diretas Já” que acontece no Vale do Anhangabaú. Na presença de mais de um milhão e meio de pessoas, Sócrates anuncia que se a Emenda Constitucional Dante de Oliveira, que restabelecia o direito de eleições diretas , fosse aprovada ele recusaria a oferta do Fiorentina da Itália e permaneceria no Brasil.

Sócrates: "Se a emenda for aprovada, eu não vou embora do meu país".

      A emenda não foi aprovada por não obter os 2/3 exigidos no congresso. Cumprindo o que prometera, Sócrates deixa o Corinthians para ir atuar no futebol italiano. Mas as manifestações populares que levavam milhões de pessoas às ruas e os 298 deputados que votaram a favor da Emenda Dante de Oliveira, demonstravam que o regime ditatorial não se sustentaria por muito tempo.


      Em tempos onde estamos sendo governados de forma ilegítima por um presidente inelegível – que atinge índices de rejeição popular que chegam a 68%, rejeição essa que abrange prós e contra impeachment -, é sempre bom reavivar na memória momentos e exemplos de resistência aos desmandos dos dominantes.  Assim como Sócrates e os outros desportistas corinthianos que mostraram para o Brasil como as coisas podem ser diferentes por meio da liberdade e igualdade de escolha, mesmo vivendo sob um regime autoritário e opressor onde a vontade popular não era ouvida e, muitas vezes, criminalizada.



Pedro Paulo Martins:  Professor/Historiador, Cabeça Chata, e Tricolor de Aço.

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