quarta-feira, 28 de setembro de 2016

God save the English Team

Quem acompanha um pouco do futebol inglês já deve, pelo menos um punhado de vezes, ter ouvido falar em Sam Allardyce. Também conhecido como 'Big Sam', o experiente técnico inglês de 61 anos têm no extenso currículo passagens por inúmeros times de variadas divisões do futebol da terra da rainha. Seu trabalho mais expressivo foi no Bolton Wanderes, onde ficou de 1999 a 2007(curiosamente foi também no Bolton que o zagueiro Sam teve maior destaque enquanto jogador, ganhando a segunda divisão na temporada 1977-1978), construindo um bom time que retornaria à Premier League, alcançaria uma semi-final da Copa da Inglaterra, uma final de Copa da Liga, além de levar o time pela primeira vez na história à Copa da UEFA - atual Europa League. O bom trabalho inclusive o fez ser considerado para o cargo de treinador da seleção inglesa, que ficaria vacante após a Copa do Mundo de 2006, quando o sueco Sven-Goran Eriksson deixaria o posto. No entanto, após realizar uma série de entrevistas com outros treinadores, a Federação Inglesa decidiu contratar Steve Mclaren e o resultado mais imediato foi a não classificação à Euro de 2008, mas isso é papo pra outro post. 
Big Sam e Anelka nos tempos de Bolton

O sonho não concretizado em 2006 veio acontecer dez anos depois, em 2016. Após a desastrosa campanha do selecionado inglês na Euro desse ano, na França, onde o time foi eliminado pela inexpressiva Islândia na fase de oitavas de final e a consequente demissão do técnico Roy Hodgson, Big Sam - após mais um bom trabalho, dessa vez no Sunderland - foi apontado para o que chamou de seu 'dream job', o trabalho dos sonhos. O cenário era repetido: time inglês eliminado de uma grande competição de maneira vexatória, necessidade de reformulação na seleção, safra ruim de jogadores, mais ou menos o que nós brasileiros também passamos após a Copa de 2006, com o agravante de que, enquanto o Brasil é pentacampão mundial, o time inglês possui apenas uma copa do mundo, além de acumular expectativas, chegando aos torneios sempre entre os favoritos e terminando de maneira decepcionante. 

Allardyce sendo apresentado como técnico da Inglaterra

Começou bem o trabalho. Vitória suada por 1x0 contra a Eslováquia, fora de casa, pelo grupo F das eliminatórias para a Copa de 2018. Os próximos dois jogos contra Malta e Eslovênia no início de Outubro já se aproximavam quando os tabloides ingleses resolveram mais uma vez fazer seu típico papel de vender sensacionalismo à todo custo. Repórteres do The Telegraph simularam ser investidores e, em um encontro com o técnico inglês gravado às escondidas, flagraram o treinador dizer que seria possível burlar as rígidas regras da Federação Inglesa no que tange à transferência de jogadores e a participação de terceiros, o que é proibido desde 2008. Além disso, Allardyce fez comentários jocosos sobre o treinador anterior, Roy Hodgson, além de dizer que o príncipe Harry seria um "menino safado" que "mostrava tudo e mais pouco" - seja lá o que isso quer dizer. Estava posto o prato cheio pra imprensa. Assim que a matéria foi publicada, todos os jornais ingleses a noticiaram e a Federação Inglesa, embaraçada, disse que medidas estavam sendo tomadas e o caso investigado.

Big Sam e a gravação do The Telegraph

Como era de se esperar, ontem, após reuniões na sede da federação, foi anunciado em comum acordo de partes que o técnico não mais permaneceria no comando da seleção. Após apenas 67 dias, o menor período de um treinador na história do selecionado inglês, o sonho de Big Sam - e toda uma carreira preparada para isso - estava acabado. A mídia inglesa, sempre espetaculosa e disposta a vender, não importando o preço que as pessoas envolvidas tenham que pagar, havia feito mais uma vez sua parte. Big Sam se pronunciou, pediu desculpas, disse que se sentia profundamente envergonhado e avisou que estaria viajando de férias, mas que logo logo esperava estar de volta no mercado. Empregadores não vão faltar. O futebol é dinâmico, as glórias e vergonhas pessoais são rapidamente esquecidas e Allardyce já provou ser um bom treinador. 

Quanto à seleção, será assumida pelo treinador do Sub-21, Gareth Southgate, pelos próximos 4 jogos enquanto a FA tenta acalmar o ambiente e definir os próximos passos para o apontamento do novo treinador. O processo de reconstrução sofre um baque e as hienas da mídia riem e agradecem por terem combustível novo pra alimentar seus jornais por algumas semanas. O torcedor inglês, um dos mais apaixonados do mundo, sofre vendo sua seleção acumular resultados vexatórios seguidos(Não classificação à Euro 2008, eliminação na primeira fase na Copa de 2014, eliminação pela Islândia na Euro 2016) e aumentar a pecha de "favorito de mentirinha" que acompanha o selecionado desde a muito tempo. 


Eliminações, eliminações everywhere.


Sinais de mudança parecem longe. Basta ver a pouquíssima presença de jogadores ingleses nos times titulares das grandes equipes da Premier League, o baixo investimento no incentivo ao desenvolvimento de talentos locais, preferindo-se a contratação de estrangeiros na mais tenra idade, o declínio técnico/físico visível do capitão e talismã Wayne Rooney, além do eterno processo de sabotagem interno promovido pelos jornais ingleses. As perspectivas não são nada boas. God save the English Team.  

O sonho de repetir esta cena está cada vez mais distante














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