segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Confiança fora da linha


Hoje é sábado. Véspera de clássico. Não é mata-mata, mas é jogo importante na tabela. Você está em casa querendo que o jogo chegue logo. Lembrando da aposta que fez com o amigo e que tem que passar no mercado pra comprar a cerveja paro o dia seguinte. Antes de finalmente sair você olha o site de esportes mais uma vez na esperança que a lesão do seu camisa 10 tenha magicamente desaparecido. Para sua surpresa você vê um vídeo que acabou de ser colocado por uma amigo no Facebook. No vídeo está lá o presidente da comissão de arbitragem da CBF, em uma festa. Uma festa dentro da sede da organizada do seu rival. O rival do jogo de amanhã.
O palavrão sai no automático. Pobres mães. Quando você para de xingar, volta o vídeo e vai escutar o que o infeliz está falando no vídeo. Ele está acalmando um dirigente ao dizer que o juiz para a partida de amanhã é sim preparado. Conversou com o árbitro pessoalmente e assegura que ele sabe da importância do jogo de amanhã. Você já espalhou o vídeo para todos seus amigos. Finalmente você sai de casa, acaba comprando mais cervejas do que o esperado. Você sabe que esse nervosismo antes de jogo ainda vai te dar um troço, mas fazer o quê? A cerveja dá conta. O sono chega e a hora do jogo também.
No caminho para o estádio os jornalistas debatem o vídeo da noite anterior. Mais palavrões. Você desliga o rádio. Já basta de stress. O que importa é o jogo. O time não pode perder, basta não perder. O substituto do camisa 10 é bom. Meio velho, é verdade mas tem seus lampejos e impõe respeito. Vai dar tudo certo. Respira, bebe, fuma e entra no estádio. Vai começar, canta algumas músicas para relaxar. A confiança toma conta. A torcida veio em bom número e não tem nada melhor.
Começa o jogo. Jogo começa nervoso. 10 minutos, 5 faltas. Travado, feio. Faz parte. Bola enfiada para o lateral do seu time, leva para a ponta, tenta o drible e perde. Tapa na frente e lá vem contra-ataque. O meia dele passa por um, dribla o segundo o campo se abre e lá vem o jogador do seu time, atrasado como sempre, no carrinho. Falta dura. No contra-ataque. Você prende respiração. Foi falta, sem dúvida, mas na mesma hora vem à memória o vídeo da noite anterior. Da conversa entre o chefe da comissão de arbitragem e um cartola do time adversário. Lá vem o juiz enérgico, lá vem merda. Vermelho! A torcida urra. São só 10 minutos de jogo e ele já expulsa o jogador. Lá no fundo da sua consciência você sabe que a falta foi dura, mas o vídeo berra na memória. É muita coincidência, não pode ser coincidência, pode? Foda ficar com essa dúvida pelo resto do jogo. Agora não confia em mais nada que o árbitro apita. Ai você escuta o amigo que bebeu demais do seu lado tentar fazer uma brincadeira; ainda bem que no vídeo era só o chefe dos árbitros. Podia ser pior. Como podia? Eu pergunto sem tirar o olho do campo. Já imaginou se fosse o ministro de Justiça. Imagina?!

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