terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sobre Pênaltis, presidentes e a responsabilidade na marca da cal

50 anos após esse texto ser escrito e muito futebol ter sido vivido, os torcedores de Palmeiras e Corinthians ainda irão lembrar vividamente da noite do ano 2000 durante a partida das Libertadores. Também se lembrarão, Brasil e Itália, duas nações apaixonadas por futebol, de um dia em julho de 1994. Perceba que não preciso citar os fatos. Você sabe do que eu estou falando. Pênaltis são tão importantes que é comum dizer que os presidentes deveriam cobrá-los. São momentos de oportunidade única e por isso mesmo de pressão correspondente. E o que esperar quando a penalidade máxima aparece e realmente os presidentes estão ali para cobrar?
Tal qual 2000 e 1994, o ano de 2016 será marcado como um ano inesquecível com os dois lados descrevendo cenas e emoções bem diferentes de parte a parte. Desta vez, entretanto a marca da cal não está sobre o relvado. A marca fatal está sobre o sistema político brasileiro. O ano de 2016 já é o ano mais importante da nova república brasileira. Manifestações de todos os tipos e tamanhos ocorreram e ocorrem por todo o país. A presidenta eleita foi impedida em processo até agora controverso. O ex-presidente da câmara foi afastado com o dedo em riste para o núcleo do novo governo. O maior presidente desde JK foi formalmente acusado pelo maior processo anti-corrupção do país e o seu antecessor se abstém durante a tempestade.
A nossa penalidade máxima política tinha três possíveis cobradores. Três presidentes, como manda o léxico futebolístico. A primeira perdeu inúmeras chances claras de gol, enervou-se, cometeu faltas e no momento de receber cartão amarelo viu a cor vermelha de seu uniforme a lhe expulsar. Era a oportunidade do próximo passo na política brasileira. Uma administradora eficiente saiu-se como péssima politica e gerente medíocre. O primeiro pênalti fora perdido.
        Eis que vem o craque do time para a cobrança. A muito dizem que está aposentado. Porém, o anúncio do seu nome faz tremer qualquer adversário. A ele poderia caber uma cobrança simples. Um tiro certeiro. Mostrar como se faz e pendurar a chuteiras por cima. Sairia como o rei da grande área, indiscutível.
O ego e uma entrada duvidosa o tiram do rumo e temos mais uma cobrança sendo perdida. O país tem a chance de renovar o time com o trio de arbitragem mais enérgico que já veio a campo. A vontade causa ânsia e esta é inimiga da ponderação serena. Temos no momento um imbróglio. Tal qual no milagre dos aflitos temos jogadores e arbitragem a se estapear sobre a marca da penalidade. O jogo está no seu momento mais sujo. O ódio da torcida adversária direcionada ao craque de vermelho pressiona o árbitro e este parece se deixar levar. O grito da multidão abafa a dúvida, infelizmente. E é neste momento que se deve esperar mais dos maiores jogadores.
Pois o último recurso a esse impasse é outro presidente. Um que o silêncio traz mais incômodo que a ação. Já deveria ter chegado perto do craque do outro time e acalmado os ânimos, conversado de lado. Mas não o faz. Sua equipe está rachada. Disputas de vestiário. Uma mera conversa com o adversário poderia ser visto como traição pelos colegas e pela torcida. É clássico em final de campeonato, ora pois.
       E com esse desenrolar todas as oportunidades de cobrança vão sendo desperdiçadas. O país fica estático com os olhos na grande área, respiração presa vendo a oportunidade de avanço no placar se esvair. A chance não pode ser perdida. A torcida precisa ver gols para amainar a vontade de sangue. Daqui a 50 anos esta disputa de pênaltis não será esquecida. Que no fim minha cabeça já cheia de cabelos brancos tenha uma memória positiva, apesar de no presente a imagem ser triste. A marca da cal ainda permanece lá, mal tratada e à espera do jogador que a respeitará com a importância que tem. Pois quando você olha muito tempo para a marca do pênalti, a marca do pênalti olha para você.

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