50
anos após esse texto ser escrito e muito futebol ter sido vivido, os torcedores
de Palmeiras e Corinthians ainda irão lembrar vividamente da noite do ano 2000
durante a partida das Libertadores. Também se lembrarão, Brasil e Itália, duas
nações apaixonadas por futebol, de um dia em julho de 1994. Perceba que não
preciso citar os fatos. Você sabe do que eu estou falando. Pênaltis são tão
importantes que é comum dizer que os presidentes deveriam cobrá-los. São
momentos de oportunidade única e por isso mesmo de pressão correspondente. E o
que esperar quando a penalidade máxima aparece e realmente os presidentes estão
ali para cobrar?
Tal
qual 2000 e 1994, o ano de 2016 será marcado como um ano inesquecível com os
dois lados descrevendo cenas e emoções bem diferentes de parte a parte. Desta
vez, entretanto a marca da cal não está sobre o relvado. A marca fatal está
sobre o sistema político brasileiro. O ano de 2016 já é o ano mais importante
da nova república brasileira. Manifestações de todos os tipos e tamanhos
ocorreram e ocorrem por todo o país. A presidenta eleita foi impedida em
processo até agora controverso. O ex-presidente da câmara foi afastado com o
dedo em riste para o núcleo do novo governo. O maior presidente desde JK foi
formalmente acusado pelo maior processo anti-corrupção do país e o seu
antecessor se abstém durante a tempestade.
A
nossa penalidade máxima política tinha três possíveis cobradores. Três
presidentes, como manda o léxico futebolístico. A primeira perdeu inúmeras
chances claras de gol, enervou-se, cometeu faltas e no momento de receber
cartão amarelo viu a cor vermelha de seu uniforme a lhe expulsar. Era a
oportunidade do próximo passo na política brasileira. Uma administradora
eficiente saiu-se como péssima politica e gerente medíocre. O primeiro pênalti
fora perdido.
Eis
que vem o craque do time para a cobrança. A muito dizem que está aposentado.
Porém, o anúncio do seu nome faz tremer qualquer adversário. A ele poderia
caber uma cobrança simples. Um tiro certeiro. Mostrar como se faz e pendurar a
chuteiras por cima. Sairia como o rei da grande área, indiscutível.
O
ego e uma entrada duvidosa o tiram do rumo e temos mais uma cobrança sendo
perdida. O país tem a chance de renovar o time com o trio de arbitragem mais
enérgico que já veio a campo. A vontade causa ânsia e esta é inimiga da
ponderação serena. Temos no momento um imbróglio. Tal qual no milagre dos
aflitos temos jogadores e arbitragem a se estapear sobre a marca da penalidade.
O jogo está no seu momento mais sujo. O ódio da torcida adversária direcionada
ao craque de vermelho pressiona o árbitro e este parece se deixar levar. O
grito da multidão abafa a dúvida, infelizmente. E é neste momento que se deve esperar
mais dos maiores jogadores.
Pois
o último recurso a esse impasse é outro presidente. Um que o silêncio traz mais
incômodo que a ação. Já deveria ter chegado perto do craque do outro time e
acalmado os ânimos, conversado de lado. Mas não o faz. Sua equipe está rachada.
Disputas de vestiário. Uma mera conversa com o adversário poderia ser visto
como traição pelos colegas e pela torcida. É clássico em final de campeonato,
ora pois.
E com esse desenrolar
todas as oportunidades de cobrança vão sendo desperdiçadas. O país fica
estático com os olhos na grande área, respiração presa vendo a oportunidade de
avanço no placar se esvair. A chance não pode ser perdida. A torcida precisa
ver gols para amainar a vontade de sangue. Daqui a 50 anos esta disputa de pênaltis
não será esquecida. Que no fim minha cabeça já cheia de cabelos brancos tenha uma
memória positiva, apesar de no presente a imagem ser triste. A marca da cal
ainda permanece lá, mal tratada e à espera do jogador que a respeitará com a
importância que tem. Pois quando você olha muito tempo para a marca do pênalti, a marca do pênalti olha para você.

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