O que o futebol tem a ver com voto e democracia?
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| O futebol teve papel importante na redemocratização brasileira. |
É lugar comum fazer a velha associação entre futebol e
alienação popular. Aqueles que tentam fazer um comentário profundo vão buscar
na antiguidade clássica a associação rasa que chama o futebol de pão e circo da
atualidade. É bem verdade que existem manipulações e são muito bem feitas com
todos seus fetiches e outros significados.
Mas aqui não adotaremos esse olhar unilateral do “futebol ópio popular”.
Se passarmos a perceber que o futebol não pode ser analisado
separado da sociedade em que se desenvolve, começaremos a entendê-lo como
espaço de manifestações não só esportiva, mas sociais e políticas.
Assim, para enfrentar a equipe do “Lugar Comum Futebol
Clube”, que tem uma torcida bastante barulhenta mas pouco preparada, escalo a
Democracia Corinthiana para campo. Mais precisamente para analisar o contexto
social do fim da ditadura e o movimento “Diretas já”.
O mesmo esporte que fora usado pela ditadura civil-militar
no Brasil para propagandear e exaltar o governo várias vezes (tomemos como
exemplo apropriação feita pela seleção brasileira na Copa do Mundo do México em
1970: “Pra frente Brasil, Salve a Seleção”), também serviria como ferramenta de
comoção popular para o retorno da democracia.
Em 1981, um grupo de jovens desportistas de um dos clubes
mais populares do Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista, começava a dar
importância a liberdade e igualdade no futebol por meio de um movimento de
gestão democrática que ficou conhecido como: Democracia Corinthiana. Encabeçada
por um diretor de futebol que não entendia muito de cartolagem, o jovem
sociólogo Adilson Monteiro Alves, e jogadores politizados, como Wladimir,
Casagrande e Sócrates, a Democracia Corinthiana pregava o voto como ferramenta
de escolha para decisões do clube. Tais decisões eram tomadas apenas por
dirigentes, mesmo a contra-gosto de atletas e funcionários.
Desde concentrações,
viagens e até escolhas de treinadores passavam pela seleção democrática, onde
os votos tinham o mesmo peso, desde o roupeiro até os diretores de futebol do
clube. Isso tudo está acontecendo num momento em que os brasileiros não podiam
escolher quem seria seu presidente há 17 anos.
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| Coincidências do futebol ou não, depois desse novo regime democrático o Corinthians ganha dois títulos paulista consecutivos, o que não acontecia há trinta anos. |
Tendo em vista o grande apelo popular que o futebol tem no
Brasil e a capacidade de instigar pessoas com pouco interesse por política, não
demoraria muito para que o exemplo de democracia exercido nos campos também
fosse desejado pela sociedade e se manifestasse na vontade de votar para
presidente.
A passagem da Democracia Corinthiana dos campos de futebol
para o campo político nacional se materializa em abril de 1984 no comício pelas
“Diretas Já” que acontece no Vale do Anhangabaú. Na presença de mais de um
milhão e meio de pessoas, Sócrates anuncia que se a Emenda Constitucional Dante
de Oliveira, que restabelecia o direito de eleições diretas , fosse aprovada
ele recusaria a oferta do Fiorentina da Itália e permaneceria no Brasil.
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| Sócrates: "Se a emenda for aprovada, eu não vou embora do meu país". |
A emenda não foi aprovada por não obter os 2/3 exigidos no
congresso. Cumprindo o que prometera, Sócrates deixa o Corinthians para ir
atuar no futebol italiano. Mas as manifestações populares que levavam milhões
de pessoas às ruas e os 298 deputados que votaram a favor da Emenda Dante de
Oliveira, demonstravam que o regime ditatorial não se sustentaria por muito
tempo.
Em tempos onde estamos sendo governados de forma ilegítima por um presidente inelegível – que atinge índices de rejeição popular que chegam a 68%, rejeição essa que abrange prós e contra impeachment -, é sempre bom reavivar na memória momentos e exemplos de resistência aos desmandos dos dominantes. Assim como Sócrates e os outros desportistas corinthianos que mostraram para o Brasil como as coisas podem ser diferentes por meio da liberdade e igualdade de escolha, mesmo vivendo sob um regime autoritário e opressor onde a vontade popular não era ouvida e, muitas vezes, criminalizada.
Pedro Paulo Martins: Professor/Historiador, Cabeça Chata, e Tricolor de Aço.




Excelente texto!!!Muito rico e esclarecedor!
ResponderExcluirTirando o tricolor, o blog tá 10!!!kkkk
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ResponderExcluirTirando o tricolor o blog tá 10!!!
ResponderExcluirXD
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Essa é a melhor parte! ;)
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