Em
um dos livros mais importantes do século XX, George Orwell criticou entre
outras coisas o uso da linguagem pelo estado. Em 1984 Orwell mostrou o poder
que denominar algo tem para a formação do pensamento humano, usando como um
dos exemplos o ministério da paz, o qual
era responsável por todas as atividades de segurança interna e externa do país.
Não estávamos mais tratando de guerra, apesar de ser isso que de fato tratava o
ministério da paz. Não passa despercebido que este tipo de manipulação também é
utilizada sem problemas nos departamentos de propaganda e marketing mundo
afora.
O
mundo esportivo é um dos pontos mais altos do poder de marketing no mundo
moderno. Os grandes atletas devem ser exemplos de cidadão, modelos para roupas,
relógios, carros, perfumes e ainda para crianças e adolescentes.Não podem ter
visões políticas polêmicas ou consideradas extremadas pelo público alvo de seus
patrocinadores. Todo esse processo está óbvio presente no futebol e todo esse
texto vem por causa dessa foto tirada após a vitória contra a Escócia, e
portanto antes do amistoso contra a Espanha.
Wayne
Rooney, o maior goleador que já vestiu a camisa dos 3 leões com 53 gols, foi
fotografado embriagado em uma festa com duas garotas ao seu lado. Em outras
fotos do tablóide Rooney é visto quase sem conseguir se manter em pé sozinho. E
o mundo do futebol inglês quase veio abaixo com isso. Opinião do clube, do
Manager e do técnico inglês e da FA e é claro das empresas que patrocinam todos
os diretamente relacionados ao atleta. Nessa busca pela próxima manchete foram
perguntar a Jurgen Klopp a sua opinião (perceba que Klopp não treina nem nunca
treinou Wayne Rooney).
Eis
que Klopp sai com uma das melhores respostas possíveis. “Eu sei que estamos no
lado ensolarado da vida, ganhamos muito, temos o trabalho que amamos, talvez
venha como uma surpresa que também somo humanos. Algumas vezes nós somos
convidados para casamentos, aniversários ou o que seja. Se te oferecem uma
bebida você pode dizer não, mas não é assim que a vida funciona.” O manager
alemão continua “Essa geração é uma das mais profissionais que a Inglaterra já
teve. Todas as lendas que amamos bebiam como demônios e fumavam como loucos e
eu não conheço ninguém que faz isso hoje em dia.” Chamo aqui a atenção para a palavra que ele
usou para qualificar a geração inglesa. Profissionais.
Dessa
declaração do Klopp tiro duas considerações. Primeiro, Klopp não conhece O
didico. Segundo ser profissional é lutar contra a própria humanidade em você. É
isso que o mundo esportivo de alto rendimento se tornou. Não só pelo avanço
científico e de rendimento, que merece um texto aparte, a imposição por uma
imagem a ser vendida faz com que os jogadores precisem ser modelos de
comportamento a serem expostos, admirados e usados.
Até
que ponto é justo cobrar do jogador tudo isso? Existe uma frase atribuída a
George Best um dos maiores jogadores de todos os tempos que diz “Gastei metade
do meu dinheiro com bebidas, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei”
Você consegue ver algum atleta com essa atitude hoje em dia? Mas e se eu
perguntar se você consegue ver algum ser humano com essa atitude? Talvez você
que lê poderia querer uma vida mais hedonista como a de Best.
Em
nome dos resultados em campo e financeiros os atletas não podem aproveitar a
vida como a maioria de nós gostaríamos de aproveitar a nossa. Não precisamos ir
aos exageros de Best para isso. No futebol das marcas ter opinião religiosa ou
política é quase crime e os contratos vem com clausulas de conduta. Não
permitimos que o atleta expresse sua humanidade de ser falho. Modelos à venda
não podem ser falhos.
Garrincha, Sócrates, Gerd Muller, Cantona, George Best, Casagrande e Maradona. Nenhum
deles seria visto da mesma forma no futebol de hoje. Talvez não tenhamos esses
jogadores devido ao tolhimento em nome do profissionalismo. Será que hoje seria
possível ter um movimento como a democracia corinthiana em um país dividido
como o nosso no momento? Será que algum clube do mundo iria contratar O
Garrincha hoje? Ou O Maradona? Tenho receio de que todas as respostas seriam
‘não’. E por quê? Pois estes jogadores não são profissionais. Eles são falhos.
Eram jogadores de futebol. Quase deuses quando em campo e falhos como eu e você
fora dele. Com o dinheiro e poder rápidos vem cobrança e vigilância
constantes. Em nome do profissionalismo,
recusaríamos o futebol destes e talvez estejamos recusando de alguns hoje. Em
nome do profissionalismo, não aceitamos as falhas humanas daqueles que devem
ser modelo aos outros antes de viverem a própria vida. Em nome do
profissionalismo desumanizamos o jogador e por fim a nós mesmos quando usamos
como exemplo uma imagem artificial, incompleta e imposta.

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