sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Profissionalismo no dos outros é refresco

Em um dos livros mais importantes do século XX, George Orwell criticou entre outras coisas o uso da linguagem pelo estado. Em 1984 Orwell mostrou o poder que denominar algo tem para a formação do pensamento humano, usando como um dos  exemplos o ministério da paz, o qual era responsável por todas as atividades de segurança interna e externa do país. Não estávamos mais tratando de guerra, apesar de ser isso que de fato tratava o ministério da paz. Não passa despercebido que este tipo de manipulação também é utilizada sem problemas nos departamentos de propaganda e marketing mundo afora.
O mundo esportivo é um dos pontos mais altos do poder de marketing no mundo moderno. Os grandes atletas devem ser exemplos de cidadão, modelos para roupas, relógios, carros, perfumes e ainda para crianças e adolescentes.Não podem ter visões políticas polêmicas ou consideradas extremadas pelo público alvo de seus patrocinadores. Todo esse processo está óbvio presente no futebol e todo esse texto vem por causa dessa foto tirada após a vitória contra a Escócia, e portanto antes do amistoso contra a Espanha.


Wayne Rooney, o maior goleador que já vestiu a camisa dos 3 leões com 53 gols, foi fotografado embriagado em uma festa com duas garotas ao seu lado. Em outras fotos do tablóide Rooney é visto quase sem conseguir se manter em pé sozinho. E o mundo do futebol inglês quase veio abaixo com isso. Opinião do clube, do Manager e do técnico inglês e da FA e é claro das empresas que patrocinam todos os diretamente relacionados ao atleta. Nessa busca pela próxima manchete foram perguntar a Jurgen Klopp a sua opinião (perceba que Klopp não treina nem nunca treinou Wayne Rooney).
Eis que Klopp sai com uma das melhores respostas possíveis. “Eu sei que estamos no lado ensolarado da vida, ganhamos muito, temos o trabalho que amamos, talvez venha como uma surpresa que também somo humanos. Algumas vezes nós somos convidados para casamentos, aniversários ou o que seja. Se te oferecem uma bebida você pode dizer não, mas não é assim que a vida funciona.” O manager alemão continua “Essa geração é uma das mais profissionais que a Inglaterra já teve. Todas as lendas que amamos bebiam como demônios e fumavam como loucos e eu não conheço ninguém que faz isso hoje em dia.”  Chamo aqui a atenção para a palavra que ele usou para qualificar a geração inglesa. Profissionais.
Dessa declaração do Klopp tiro duas considerações. Primeiro, Klopp não conhece O didico. Segundo ser profissional é lutar contra a própria humanidade em você. É isso que o mundo esportivo de alto rendimento se tornou. Não só pelo avanço científico e de rendimento, que merece um texto aparte, a imposição por uma imagem a ser vendida faz com que os jogadores precisem ser modelos de comportamento a serem expostos, admirados e usados.
Até que ponto é justo cobrar do jogador tudo isso? Existe uma frase atribuída a George Best um dos maiores jogadores de todos os tempos que diz “Gastei metade do meu dinheiro com bebidas, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei” Você consegue ver algum atleta com essa atitude hoje em dia? Mas e se eu perguntar se você consegue ver algum ser humano com essa atitude? Talvez você que lê poderia querer uma vida mais hedonista como a de Best.
Em nome dos resultados em campo e financeiros os atletas não podem aproveitar a vida como a maioria de nós gostaríamos de aproveitar a nossa. Não precisamos ir aos exageros de Best para isso. No futebol das marcas ter opinião religiosa ou política é quase crime e os contratos vem com clausulas de conduta. Não permitimos que o atleta expresse sua humanidade de ser falho. Modelos à venda não podem ser falhos.
Garrincha, Sócrates, Gerd Muller, Cantona, George Best, Casagrande e Maradona. Nenhum deles seria visto da mesma forma no futebol de hoje. Talvez não tenhamos esses jogadores devido ao tolhimento em nome do profissionalismo. Será que hoje seria possível ter um movimento como a democracia corinthiana em um país dividido como o nosso no momento? Será que algum clube do mundo iria contratar O Garrincha hoje? Ou O Maradona? Tenho receio de que todas as respostas seriam ‘não’. E por quê? Pois estes jogadores não são profissionais. Eles são falhos. Eram jogadores de futebol. Quase deuses quando em campo e falhos como eu e você fora dele. Com o dinheiro e poder rápidos vem cobrança e vigilância constantes.  Em nome do profissionalismo, recusaríamos o futebol destes e talvez estejamos recusando de alguns hoje. Em nome do profissionalismo, não aceitamos as falhas humanas daqueles que devem ser modelo aos outros antes de viverem a própria vida. Em nome do profissionalismo desumanizamos o jogador e por fim a nós mesmos quando usamos como exemplo uma imagem artificial, incompleta e imposta.

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