Era
uma noite de semana, sei disso porque saímos apressados de casa. Chegamos ao
melhor estádio do mundo, o meu PV, eu e meu pai. Devia ter uns 9 anos, ainda
não pagava para ver o Ceará. Meu pai me leva à entrada para crianças e diz para
ficar esperando ele do lado de três homens, eles estavam de farda. Fique do
lado deles até eu chegar, disse meu pai com toda a seriedade possível, mesmo
não sendo a primeira vez que ia ao estádio. Entrei, esperei e pouco depois o vi
entrando. Corria para acompanhar seu passo. Pai, pipoca! Paramos. Outro
vendedor atento aproveita e oferece uma camisa do vozão para o filhinho. Meu
pai compra e manda eu colocar. Disse que precisávamos ganhar e estava mais que
na hora de ter minha camisa. De repente duas pessoas chegam perto do meu pai.
Eu já tinha visto o que carregava o microfone mas nunca tinha visto o que tinha
o aparelho preto no ombro. Eles olham pra mim, me filmam colocando a blusa e
perguntam o placar do jogo. 2x0 pro Ceará digo de pronto. Gols de Maradona e Tiaguinho.
Meu pai ri, agradece, me puxa e é isso. Só lembro até ai. Não me lembro de nada
do jogo ou do adversário, placar ou artilheiros.
Essa
é uma das minhas memórias mais antigas envolvendo estádio e o valor dessa
nostalgia emotiva que ganhei do meu pai soube que tinha valor mais que
sentimental por causa de um senhor de cabelo branco e voz rouca. O fundador do
meu canal esportivo preferido. A ESPN Brasil do José Trajano. Para mim, sua
saida, é motivo o bastante para um pouco de chateação. Recebi a notícia sem
acreditar. Ele trouxe para a casa tantos jornalistas que hoje admiro. Como
queria entender mais de futebol aos sete anos e ver Chico Buarque e Tostão
(!!!) juntos debatendo a copa de 98. Jornalistas, esses, que me faziam correr
da parada do ônibus para escutá-los. Adorava ver o Mauro Cezar Pereira e O PVC
cada um com um argumento melhor que o outro a debater e o Trajano, junto com o
Juca Kfouri, a contemporizar e mostrar que tinha mais coisa naquele problema.
Falas de quem conhecia o meandro do futebol e do jornalismo brasileiros.
"O melhor mau humor da TV brasileira" disse Washington Olivetto sobre ele. Devido sua posição política convicta e escancarada junto a esse mau humor marcante, sua saída levantou uma certa discussão até fora do meio esportivo e especulações sobre o motivo surgiram. Obviamente, não disponho de informação privilegiada sobre o assunto. O que tenho certeza é que a ESPN Brasil não pode desapontar o Trajano. Em um futebol dominado de forma monopólica pela Rede Globo, a ESPN do Trajano sempre foi o epicentro de crítica ferrenha aos erros dos cartolas, sejam dos clubes ou da CBF, algo que a outra emissora sempre tratou com panos quentes enquanto era conveniente.
Infelizmente,
acredito que no momento de busca por likes e viralizações do jornalismo aquele
vovô mau-humorado e cheio de histórias nostálgicas sobre o América, a Tijuca e
o Maracanã não se encaixava. Simplesmente por ser um vovô nostálgico. Na
verdade, isso não importa tanto, já que sua carreira afetou toda uma geração de
apaixonados por futebol e esportes que vêem a diferença da ESPN do Trajano em
relação à concorrência, além dos jornalistas hoje espalhados por ai. Espero ansioso
o próximo projeto. Acompanharei e aprenderei um pouco mais. Pois o vovô
mau-humorado me ensinou que a primeira vez que usei uma camisa do Ceará no
estádio não é apenas uma memória perdida na cabeça e sim algo de valor que
compartilho com milhões de apaixonados por futebol em todo o planeta.

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