domingo, 12 de fevereiro de 2017

Harry Pottker e o enigma do amadorismo


Essa semana chegou ao fim - e com desfecho inesperado - uma das negociações mais arrastadas da pré-temporada do futebol brasileiro. William Pottker, um dos artilheiros da edição do Brasileirão de 2016 com 14 gols ao lado de Diego Souza, teve sua contratação desistida por parte do Corinthians, com o qual sua equipe, a Ponte Preta, havia fechado um acordo verbal.

Pottker em ação pela Ponte Preta

O imbróglio se deu por conta da participação de Pottker na partida da Ponte contra o Campinense, pela Copa do Brasil, na última quarta-feira, 08/02. A Macaca venceu o jogo, eliminou a equipe paraibana e Pottker marcou um gol. A questão é: sua participação na partida da Copa o impede de atuar pela equipe do Parque São Jorge nas outras fases da competição. O acordo fechado entre a Ponte e o Corinthians previa que Pottker se apresentaria ao Timão apenas após o fim do Paulistão. Até então, o Corinthians abria mão de contar com o reforço no estadual, mas não esperava ter de abrir mão do atleta também na Copa do Brasil que, junto ao Brasileirão, são os dois torneios de maior expressão que o time irá jogar no ano.    

Por fim, após confirmada a participação de Pottker no jogo contra o Campinense, o diretor de futebol do Corinthians. Flávio Adauto, veio à público antes da partida do time paulista contra a Caldense, também pela Copa do Brasil, confirmar o destrato no negócio. Disse ele: "A partir deste momento oficialmente a gente não toca mais nesse assunto. Tínhamos tudo praticamente decidido para ele se integrar ao elenco após o Paulista. Isso era um acordo, era conversado. Mas a Ponte Preta colocou o jogador em campo hoje... Consultamos às 16h, às 19h, e a Ponte no direito dela colocou o jogador para atuar, o Corinthians a partir desse momento esquece esse assunto, não fala mais de Pottker." O jogador, por sua vez, justificou-se dizendo que em momento algum o Corinthians comunicou o time campineiro da necessidade de não escalá-lo nos jogos da Copa, além de assumir postura extremamente profissional ao afirmar: "Não posso deixar de representar um clube que me paga e me ajuda. Tenho que manter o foco. Tenho que continuar fazendo o que vinha fazendo ano passado, porque se deixar de fazer, não vai ter interesse de mais nenhum clube. [...] Para dar um exemplo que todos vocês conhecem: o Gabriel Jesus estava acertado para ganhar milhões e mesmo assim não tirou o pé. Jogou com a mesma intensidade nos jogos. Se ele receberia milhões, ele continuou com intensidade, imagine o Pottker, que me desculpa, ganharia uma merreca perto disso, não é?"

A internet não perdoa.

No fim, podemos tirar algumas conclusões disso tudo. A primeira delas é a constatação da maneira amadora como o departamento de futebol do Corinthians vem conduzindo suas negociações. Não há como não traçar um paralelo com o caso Drogba, tão recente. A negociação frustrada com Pottker mostra a ineficácia do time alvinegro em conseguir reforçar o time após o desmonte pós-Brasileiro de 2015(em que se sagrou campeão) e a saída de Tite, além de presentear os rivais com infindável munição para zoeira - vide o meme Harry Pottker e o enigma de Drogba. A segunda é que nem sempre a chance de jogar em um clube gigante e receber alguns zeros a mais no contra-cheque supera o profissionalismo. Pottker, ao escolher permanecer na Ponte, passa o recado certo à outros jogadores, especialmente em tempos de inflacionado mercado chinês. De bônus, ainda ganhou de volta a idolatria da torcida da Macaca, que chegou a vaiá-lo após o anúncio da negociação e que agora, no treino aberto do último sábado, voltou a gritar seu nome. Por último, se o Corinthians tivesse real interesse na contratação do atleta, que agisse de maneira mais profissional, assinando o contrato, colocando as cláusulas que lhe interessasse e garantindo o reforço do jogador. 


Afinal, vendo o êxodo de jogadores brasileiros para mercados 'emergentes', mas de baixo nível técnico como Ucrânia, Russia, Índia e por último China, o sub-aproveitamento que as grandes equipes impõem às suas categorias de base e negociações amadoras estilo Corinthians/Drogba/Pottker, fica a indagação: nosso futebol é mesmo profissionalizado?




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